As cefaleias e os dentes
Novas metodologias no tratamento das cefaleias
A Oclusão é uma disciplina da Medicina Dentária que estuda, diagnostica e trata os problemas de saúde relacionados com o mau funcionamento dos músculos da mastigação, das articulações dos maxilares e com a imperfeição do posicionamento, ou seja do “encaixe”, dos dentes.
Uma má oclusão (maloclusão) associada a forças desproporcionadas ou exageradas nas diferentes funções normais do órgão mastigador, “boca”, incluindo a língua e os lábios, produz uma disfunção, que pode levar a problemas de saúde geral, capazes de prejudicarem a qualidade de vida das populações, produzir absentismo e perda de rendimento escolar.
Um dos primeiros sintomas desta disfunção é o surgimento de dores de cabeça. Consideradas por médicos e pacientes como cefaleias, mas que na realidade são dores dos músculos da mastigação que se inserem na região lateral da cabeça.
Estas produzem as chamadas craniomialgias e surgem logo pela manhã, podendo-se prolongar por todo dia. Podem ainda confundir-se ou serem interpretadas como enxaquecas. As pessoas que as sentem podem-se conformar com elas, mas passam uma vida inteira de sofrimento.
Pode parecer simples a abordagem do problema, mas as craniomialgias representam cerca de 80 a 90% de todas as dores de cabeça. As faltas ao emprego por estas dores são muito significativas, pesam nos encargos da segurança social e diminuem o rendimento no local de trabalho.
Nas crianças e nos jovens em idade escolar é dramático, uma vez que reduzem muito a sua capacidade de aprendizagem e de estudo.
A segunda consequência são dores localizadas na região dos ouvidos, acompanhadas ou não de “cliks”, que com frequência levam as pessoas a recorrerem ao médico da especialidade. Podem surgir ainda sintomas tais como: “sensação de ouvido entupido”, zumbidos ou vozes que parecem entoar.
Em casos não muito raros o surgimento de otites não bacterianas ou a inflamação do canal auditivo externo pode estar presente.
Esta situação deve-se a uma disfunção da articulação do maxilar, provocada sobretudo pela perda de dentes desde idades muito jovens sem que estes tenham sido convenientemente substituídos, ou mesmo pelo seu mau posicionamento.
As articulações, por estas ou outras razões adoecem, inflamam, produzem dor e libertam substâncias que inflamam as estruturas que estão próximas ou à distancia, mas ligadas por nervos.
Poderemos aqui falar em verdadeiras neurites (inflamação dos nervos) designadamente uma neurite do trigémeo, o maior nervo da cabeça, que recebe sensibilidade, produz movimento e comunica com todos os outros nervos da cabeça.
Uma 3ª causa mais comum de uma má oclusão são as dores musculares da face, junto às bochechas, ou o surgimento de cansaço muscular ao mastigar. É uma situação muito característica de contactos entre os dentes em movimentos de lateralidade, que não deveriam acontecer ou mesmo contactos prematuros que interferem com a harmonia do movimento.
Estas situações são muito frequentes em pessoas que perderam um ou mais dentes. Os restantes inclinaram-se para os seus espaços e passaram a prejudicar o movimento, através de interferências ou prematuridades.
As consequências de uma má oclusão à distância são inúmeras.
Incluem problemas relacionados com os músculos dos olhos, com a posição da cabeça no espaço, com o balanço do corpo para a frente ou para trás, com dores na coluna ou mesmo dores em todas as grandes articulações do corpo, do lado direito ou do lado esquerdo, consoante a articulação do maxilar que está doente.
Convido o leitor a aproximar uma esferográfica da raiz do nariz e fixar intensamente, até ao ponto de desfocar, logo de seguida fazer a mesma manobra mas com o maxilar inferior avançado, observe a diferença, na facilidade com que aproxima a esferográfica. Pode detectar assim um problema oclusal relacionado com os músculos dos olhos.
Experimente inclinar a cabeça para os lados, frente e para trás e ir observando em que posição os dentes contactam. Diferentes contactos dentários dão-nos diferentes posições de cabeça, mas se os dentes mandarem inclinar a cabeça, porque existe por exemplo um tal contacto indevido, a cabeça inclina, mas os olhos não deixam, o plano das pupilas tem que ser paralelo ao solo, logo existe informação a chegar ao cérebro contraditória.
Então o que vai acontecer é que a coluna cervical vai compensar, assim como a cintura escapular, o conjunto da coluna e os ombros. Produzem a este nível um sistema tampão. Mas se por alguma razão este sistema ainda não for suficiente, o desequilíbrio reflecte-se na cintura pélvica, ao nível da simetria dos ossos da bacia, outro sistema tampão e por inerência aos pés, os últimos a sofrerem a adaptação.
Desta forma é fácil vermos uma criança com mal oclusão, com problemas de convergência e outros sintomas variados nos olhos, os ombros a diferentes níveis, os ossos da bacia que lhe dão uma perna mais curta e um andar desequilibrado, que lhe provoca um desgaste assimétrico nos sapatos.
Tudo isto não é assim tão simples, pois poderemos começar pelos pés ou pelos olhos e teremos um problema de má oclusão. Com todos os dentes, com espaço para todos, mas mal posicionados devido a um problema que se localiza nos olhos ou ainda mais à distância.
Esta assimetria do funcionamento do corpo provoca, entre outros problemas, uma síndrome do sistema proprioceptivo. É este sistema que nos dá uma noção do nosso corpo em relação ao espaço e nos fornece informação vinda, por exemplo, dos músculos dos olhos e dos pés, aqueles que ainda há pouco falávamos que poderiam ser alterados por uma má oclusão.
Segundo a Escola de Lisboa de Postura, este quadro de assimetria postural com as variadíssimas causas e os variadíssimos sintomas ou sinais, constituem o designado Síndrome de Deficiência Postural (S.D.P.) descrito pela primeira vez por um médico português, o Dr. Martins da Cunha, onde a dislexia de evolução em crianças ou adultos foi apresentada como um dos sintomas. Este trabalho foi continuado pelo Dr. Orlando Alves da Silva, Médico Oftalmologista, que se dedica sobretudo ao tratamento destas crianças disléxicas.
Hoje a Medicina Dentária não pode ficar apenas a olhar o dente em si, a cárie, as escovagens, os selantes nas crianças ou as restaurações nos adultos.
Deve antes olhar para o bem-estar geral do indivíduo, para o seu nível de desenvolvimento, para a sua aprendizagem e para a sua qualidade de vida.
É importante também que colabore no diagnóstico diferencial das escolioses, das cefaleias, das dores nos ouvidos, na hiperactividade, nas depressões e, por último, na dislexia.
Read More


